Dr. Luciano Vinícius Rubin Mortari
CRM/RS 61699
Medicina Preventiva
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O que protege o coração no dia a dia

Doença cardiovascular é a principal causa de morte no Brasil e no mundo. E, ao contrário do que a palavra "infarto" sugere, ela não começa no dia do evento — começa anos antes, silenciosamente.

A boa notícia é que uma parte grande do risco é modificável. A notícia menos confortável é que o que funciona não é novidade nem tem atalho.

O que tem evidência sólida

Não fumar. É a intervenção isolada de maior impacto. Parar de fumar reduz risco cardiovascular de forma progressiva, e o benefício começa em semanas. Se existe uma única mudança a priorizar, é essa — e existe tratamento para ajudar, tanto comportamental quanto medicamentoso.

Movimento regular. A recomendação de referência para adultos é de pelo menos 150 minutos semanais de atividade moderada, ou 75 de intensidade vigorosa, mais fortalecimento muscular em dois dias. Mas o dado mais útil na prática é outro: a maior diferença está entre não fazer nada e fazer alguma coisa. Sair do sedentarismo rende mais, proporcionalmente, do que aumentar de 150 para 300 minutos.

Controlar o que já se sabe alterado. Hipertensão, diabetes e colesterol elevado são os fatores em que o tratamento tem efeito mais bem demonstrado. Adesão importa mais do que qualquer ajuste fino de dieta.

Peso e circunferência abdominal. A gordura visceral tem relação mais forte com risco cardiometabólico do que o peso isolado. Reduções modestas e sustentadas já produzem efeito mensurável sobre pressão, glicemia e perfil lipídico.

Sono. Sono insuficiente ou fragmentado é fator de risco cardiometabólico reconhecido, e a apneia obstrutiva do sono tem associação direta com hipertensão de difícil controle.

Álcool com moderação — e sem mitos. A ideia de que uma dose diária protege o coração não se sustenta como antes. A recomendação atual é de moderação, e não existe fundamento para começar a beber por motivo de saúde.

Alimentação: o que realmente importa

Boa parte do ruído sobre alimentação vem de discutir detalhes antes de resolver o essencial. Alguns pontos com base consistente:

Padrão alimentar vence nutriente isolado. Padrões do tipo mediterrâneo — mais vegetais, frutas, grãos integrais, leguminosas, peixes e azeite; menos carne processada e ultraprocessados — têm a melhor evidência em desfechos cardiovasculares. Nenhum alimento isolado faz isso.

Reduzir ultraprocessados. Vale mais do que contar calorias. Eles concentram sódio, gorduras de má qualidade e açúcar, e são consumidos com pouca saciedade.

Sódio. A redução tem efeito consistente sobre a pressão arterial. O sal visível na mesa é minoria: a maior parte vem de industrializados, embutidos, temperos prontos e refeições fora de casa.

Sustentabilidade acima de perfeição. Uma dieta rigorosa abandonada em três semanas rende zero. Uma mudança modesta mantida por anos rende muito. Esse é o critério que costuma faltar.

O que não tem a evidência que aparenta

Vale nomear, porque consome dinheiro e atenção:

  • Suplementos "para o coração" em pessoas sem deficiência documentada, incluindo antioxidantes e polivitamínicos, não demonstraram redução de eventos cardiovasculares.
  • Ômega-3 em cápsula para prevenção primária em pessoa sem indicação específica tem resultados bem menos favoráveis do que a divulgação sugere.
  • Detox, superalimentos e protocolos com promessa de "limpar as artérias" não têm base.

Isso não significa que suplementação nunca tenha lugar — significa que ela responde a uma indicação clínica, não a marketing.

O papel do estresse e da saúde mental

A relação entre estresse crônico e risco cardiovascular passa em boa parte pelo comportamento: sono pior, mais álcool, menos exercício, alimentação desorganizada, adesão irregular a medicações. Depressão está associada a pior prognóstico em pacientes com doença cardiovascular estabelecida.

Por isso saúde mental não é um tema paralelo em prevenção cardiovascular. É parte dela.

O que o risco individual muda

Duas pessoas com o mesmo colesterol podem ter condutas completamente diferentes. A decisão sobre tratar, e com que intensidade, depende do risco cardiovascular global — que combina idade, sexo, pressão, colesterol, tabagismo, diabetes e história familiar.

É por isso que não existe uma meta única de colesterol para toda a população: a meta depende do risco. E é por isso que copiar a conduta de outra pessoa, ainda que com exames parecidos, não funciona.

Sinais que exigem atendimento imediato

Prevenção é o assunto deste texto, mas o reconhecimento de emergência salva vida:

Dor ou aperto no peito, especialmente se irradia para braço, mandíbula ou costas, com falta de ar, suor frio, náusea ou mal-estar intenso. Falta de ar súbita. Perda de força ou dormência de um lado do corpo, alteração da fala, perda visual súbita — sinais de AVC.

Nesses casos, 192 (SAMU) ou pronto-socorro imediatamente. Tempo é músculo cardíaco, e tempo é cérebro.

Conteúdo informativo, baseado em evidências. Não substitui avaliação médica individual.

Leia também: Acompanhar a pressão arterial em casa · Quando fazer um check-up preventivo · Por que o sono é tão determinante

Autoria: Dr. Luciano Vinícius Rubin Mortari — CRM/RS 61699 Publicado em: 19/08/2026 · Última revisão médica: 19/08/2026

Referências 1. Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz de Prevenção Cardiovascular. [conferir edição vigente] 2. Organização Mundial da Saúde. Diretrizes globais sobre atividade física e comportamento sedentário, 2020.